28 de out de 2013

Explorando novos destinos por dentro da Comunidade

Regiões pacificadas no rio se tornam destino de turistas. As opções de programa estão chamando cada vez mais atenção do público

“O morro não tem vez. Quando derem vez ao morro o mundo inteiro vai cantar: Samba pede passagem, o morro quer se mostrar”. Tom Jobim e Vinicius de Morais já falavam, Elis Regina eternizou. Antes, a ideia de “cidade partida” dividia a cidade entre morro e asfalto, com as comunidades dominadas pelo crime organizado. Hoje, a pacificação de diversas comunidades no Rio proporcionou não só aos cariocas, mas aos turistas de todo o país e do mundo, a visitarem e conhecerem as peculiaridades das favelas. O sobe e desce é constante, e de onde você veio (ou para onde você vai) pouco importa. O que importa mesmo é o que você tem para fazer ali. E as opções de programa estão chamando cada vez mais atenção.
Segundo pesquisa do Instituto Data Popular, as comunidades movimentam cerca de R$ 13 bilhões por ano e potencializam a geração de emprego e fonte de renda, em hostel, bares, restaurantes e outros estabelecimentos. A fama de boa cozinheira de Léa Silva, 49, conhecida como Tia Léa, ultrapassou os limites do Vidigal, comunidade em que mora, situada entre os bairros do Leblon e São Conrado, na Zona Sul do Rio, e ganhou a cidade. Em um convite inusitado ao até então cônsul-geral da França, Hugues Goisbault, com quem trabalhava na época como auxiliar de serviços gerais da Câmara de Comércio França-Brasil, ela viu a sua laje se tornar a mais badalada do morro.
“Queria convidá-lo para vir até a minha casa e provar da minha comida. Fiz o convite ao cônsul, e surpreendentemente, ele aceitou. Depois disso, vi que poderia convidar outras pessoas importantes. Já chamei o Sarkozy, o Obama e até o Lula”, conta a banqueteira.
Tia Léa cativa quem sobe na sua laje. Bem na porta já dá para avistar as fotos com famosos. Também conhecida como Ana Maria Braga do Vidigal, sua fama e ela própria já pararam uma coletiva de imprensa do rapper americano Snoop Dog, em um hotel em Santa Teresa.
“Sou fã do Snoop e adoro rap. Fiquei sabendo que ele daria entrevista em um hotel e fui achar uma maneira de conseguir tirar uma foto com ele. Em meio à movimentação das entrevistas, consegui chegar até ele e fui apresentada, não me contive de emoção”, revela. Na ocasião, Snoop Dog transformou a “tia” em “mãe” e a adotou. A situação foi documentada e faz parte do vídeo de abertura da turnê do rapper. “Fiquei famosa e internacional”, brinca.
Ainda no Vidigal, basta subir em uma moto-táxi ou andar um pouco mais acima para encontrar o casarão da cultura, que é sede do Grupo Nós do Morro. O projeto é referência de cursos de formação nas áreas de teatro e cinema. Desde 2001, o Nós do Morro conta com patrocínio da Petrobras e hoje, aproximadamente, 400 alunos fazem parte da estrutura do grupo.
“O Nós do Morro começou em 1987 com a proposta de aula de artes cênicas aqui na comunidade. A responsabilidade de fundação do grupo é de nomes como Guti Fraga, Fred Pinheiro, Luis Paulo Corrêa, Zezé Silva e Fernando Mello. A partir disso, foi se fazendo uma certa peregrinação de um espaço que abrigasse o tanto de ideia que envolvia o grupo”, relembra Alexandre Barreto, responsável pela gestão administrativa e de projetos do Grupo Nós do Morro, que desde 1998 tem sede fixa no Vidigal.
“Hoje, o Nós do Morro beneficia não só a comunidade do Vidigal, como o Brasil todo. O grupo vai completar 26 anos e, desde a sua fundação, vem realizando um trabalho de formação artística muito pautado na busca da qualidade. Isso faz com que seja a diferença, porque não foi um grupo criado para tirar a criança de rua e sim para dar o acesso à arte”, conta Alexandre Barreto.
O trabalho desenvolvido pelo grupo não é só repercutido na comunidade. Toda a cidade é atingida pelo reflexo do que é proposto. “O Vidigal sempre foi simpático à população, e não só pela geografia. Desde que ficou implícito na mentalidade do Rio de que as favelas eram área de risco, o Vidigal foi visto de uma maneira diferente, pela forma como interagia com tudo”, reforça Barreto.
Para propor a continuidade dessa interação, o Nós do Morro promove até 20 de novembro a “Mostra de Teatro”, que chega a sua décima edição e apresenta 12 espetáculos teatrais. A apresentação é fruto do trabalho realizado ao longo do ano nas oficinas artísticas do grupo. “A Mostra é uma oportunidade de proporcionar aos nossos alunos um contato com o público. Muita gente sobe o morro para participar e interagir com a variedade de espetáculos”, afirma Barreto.
Envolvidos na ideia de trocar referências, os estudantes de cinema Luiza Sá, 23, Pedro Riguetti, 22, e Bruno Keusen, 23, subiram o morro do Vidigal, até a sede do Grupo Nós do Morro, para complementar um trabalho da faculdade. “A nossa professora fez a proposta do trabalho que era vir a campo reconhecer e documentar através do vídeo essa experiência. Nós escolhemos o grupo por ser uma comunidade mais próxima ao nosso cotidiano e, também, pela ideologia deles que nos agrada”, conta Luiza.
“Muita gente não conhece o dia a dia de uma favela e não quer conhecer. Nós, como estudantes, temos a obrigação de saber como são as realidades diferentes da nossa. A proposta da nossa professora veio muito a calhar para que tivéssemos esse contato, e eu tenho certeza que foi esse o objetivo dela”, analisa Bruno.
A favela Tavares Bastos, no Catete, ficou conhecida por muito tempo como a única das grandes comunidades do Rio de Janeiro onde não existia tráfico de drogas nem a atuação de milícias. Com uma das vistas mais privilegiadas (quiçá da cidade) para a baía de Guanabara, a pousada/hostel/albergue The Maze já virou referência no que diz respeito à hospedagem por lá. Fundado em 2008, por Bob Nadkarmi, o espaço era, inicialmente, um projeto de ateliê de pintura do até então turista inglês, mas se tornou muito mais do que isso. 
“Eu vim parar no Brasil por um acidente (risos). O navio no qual eu estava, que iria para o Equador, não teve condições de seguir viagem e me despejou aqui. Morei por um ano no Brasil até ser expulso pelos militares, assim como tantos estrangeiros que viviam no país. Voltei em 1979, definitivamente, como correspondente de uma agência de notícias e daqui não quis sair mais”, relembra.
A pousada/hostel/albergue é conhecida, também, pelas noites de jazz promovidas por Bob. “O jazz começou meio que sem querer depois de fazer um churrasco para alguns amigos, com música boa, e foi crescendo aos poucos”, conta Bob. De lá pra cá, o espaço promove toda primeira sexta-feira do mês, uma ótima pedida para noitada de música boa que conta com mais de 500 pessoas. As diárias da pousada giram em torno de R$ 120 e R$ 180, com café da manhã incluso. Já para curtir o jazz, que começa a partir das 21 horas, é preciso pagar R$ 30.
Seguindo as mesmas características de comunidade há tempos pacificada, o Santa Marta, entre os bairros de Laranjeiras e Botafogo, já mostrou seu charme para o mundo. Tida como a mais pop dentre as comunidades, o morro já foi cenário para o clipe “They don’t care about us”, de Michael Jackson, em 1996. Desde então, virou destino certo para outras celebridades, como Madonna, Beyoncé e Alicia Keys.
Com um elevador, que leva os moradores e visitantes do início do morro até o topo, dividido em outras quatro estações, a circulação de turistas é constante durante todo o dia. Através do programa “Rio Top Tour”, Elias Duarte, 39, morador da comunidade há 35 anos e, agora, guia turístico, promove o turismo sustentável na região. 
“Através do projeto, busquei me capacitar para fazer disso o meu ofício. Fui criado aqui e sei, melhor do que ninguém, cada peculiaridade. Cada lugar que você visita, uma viela, uma escadaria, uma casa tem uma história e as pessoas demonstram interesse em conhecer”, comenta Elias.
Atenta às histórias e informações, uma família da Alemanha acompanha os passos do guia, que passeia do topo do morro até a colorida praça do Cantão, onde acontecem os principais eventos da comunidade. Frithjof Cornelisen, 40, Fanny, 37, sua esposa, Ebba, 7, Toni, 3 Fritzi, 1, suas filhas seguem atentos e encantados com os comentários de Elias sobre a história de cada ponto.
“Os aspectos das comunidades são iguais em qualquer lugar do mundo. O que nos chama a atenção, e acredito que seja assim com a maioria das pessoas que visitam, é a história que envolve essas regiões. A mentalidade de favelas pacificadas no Rio de Janeiro é recente e chama a atenção de quem está conhecendo a cidade”, analisa Frithjof. “O Corcovado tem os seus atributos e o Pão de Açúcar também... Estamos aqui para conhecer e entender a essência do lugar”, completa.
Da Zona Sul para a Zona Norte. Em um total de 15 comunidades, o Complexo do Alemão já foi tido como uma das regiões mais violentas do Rio. Com uma área total de mais de um milhão de metros quadrados e uma população de 60 mil moradores, é possível constatar tudo isso vendo lá de cima, no alto do teleférico.
Desde julho de 2011, dá para embarcar na primeira estação (Bonsucesso), seguindo até a última (Palmeiras) e se impactar com o paredão de casas sem fim aos olhos. Por dia, segundo cálculos da SuperVia, sobem no teleférico cerca de 12 mil pessoas. O número já garantiu à atração a primeira colocação no ranking dos pontos turísticos mais badalados da cidade: o Pão de Açúcar recebe até seis mil pessoas nos fins de semana, e o Cristo Redentor atrai um pouco mais de quatro mil por dia.
Impressionadas com a vista que o último estágio do teleférico proporciona, as turistas vindas de Sombrio, no estado de Santa Catarina, Eliete Faria, 47, Marlene da Silva, 59, e Eliane Miguel, 45, não conseguem esconder a curiosidade. “Aonde eu consigo enxergar a casa da Maria Vanúbia”, dispara Eliete, em busca de uma referência da personagem da novela da Rede Globo, “Salve Jorge”. E todos se divertem.
Quem as acompanha é o sobrinho, Daniel Miguel, comerciante de 32 anos e morador que, apesar de morar no Rio, não conhecia o Complexo do Alemão. “É uma realidade tão próxima da nossa, mas nunca tinha tido a oportunidade de conhecer o Alemão. Quando elas chegaram aqui já vieram cheias de curiosidades para conhecer o que viam na novela”, conta Daniel.
“As coisas que passam na televisão não são sempre totalmente reais. É preciso que a gente tenha a oportunidade de conhecer para saber como é. Esse lugar é incrível e encantador... Sobretudo grandioso”, se entusiasma Marlene.
Seja nas delícias da Tia Léa do Vidigal e na arte do Nós do Morro, seja na simplicidade de Bob no Tavares Bastos, no orgulho da sua comunidade Santa Marta do Elias e até na grandiosidade do Alemão: as favelas resgatam a força do povo, que se mantém útil. Assim como o Cristo Redentor, a comunidade está de braços abertos para te receber. É só subir.

Fonte: http://jornal.ofluminense.com.br/editorias/revista/explorando-novos-destinos-por-dentro-da-comunidade 

Imagem: http://viverdoturismo.wordpress.com/tag/favela/

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